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"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

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publicado às 19:55

Manhattan

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.04.08

 

Manhattan…Woody Allen e Nova Iorque. Woody Allen e os diálogos delirantes. Woody Allen e Gershwin. A preto e branco.

Woody Allen frenético nos monólogos, onde várias ideias se cruzam, sempre um pouco neuróticas (bem, muito neuróticas...).

Nelerevemo-nos tantas vezes… As nossas pequenas existências, muitas vezes baralhadas, trocadas, torcidas, mas sempre (bem, quase sempre…) cómicas.

Manhattan, pois. O amor pela cidade de Nova Iorque nas imagens da cidade, a preto e branco, e na música de Gershwin. E logo a seguir o amor real, à escala humana, embora de duração tão improvável (daí o seu maior valor…) entre um cínico neurótico e uma rapariga simples e carinhosa. Amor que, apesar das inseguranças do homem, sobreviverá no final da história. E finalmente as dúvidas filosóficas sobre a vida, a solidão, os afectos, as inseguranças humanas.

Cenas inesquecíveis:

As conversas a dois, com a rapariga, em que Woody a aconselha a viver e a voar, que tem a vida à sua frente, ele é velho para ela… e a cena da despedida, verdadeiramente dorida de tão discreta na sua dor (doce doce Muriel…);

As dúvidas de Woody sobre a sua capacidade de comediante, mudando o rumo para viver da escrita e ficando com problemas acrescidos de dificuldades financeiras: perfeitamente visíveis no novo apartamento e na cor castanha da água que sai da torneira;

Todas as conversas dos dois amigos sobre as mulheres, os afectos, as complicações, os problemas financeiros, a cidade, os carros (Woody só se movimenta de táxi, recusando-se a contribuir para a poluição global e engarrafamentos) e as conversas a quatro, com uma Diane Keaton armada em filósofa arrogante, a criticar escritores (enquanto caminham, ao longo do passeio) e as obras na exposição (quando de novo se encontram os quatro);

Toda a visita ao planetário, Woody com Diane, dois perfeitos neuróticos… e a correria no parque debaixo da tempestade chuvosa…

Mas a cena mais impressionante é a final, no hall de entrada do prédio de Muriel, naquela troca de papéis. Tens de aprender a confiar... nem todas as pessoas são iguais... dir-lhe-á a rapariga, malas prontas, bilhete de avião na mão. Nesta cena é risível o ar de rapazinho mimado que o Woody afivela para a convencer a ficar. Ainda mais risível porque ao longo do filme é ele que a incentiva a avançar com a sua vida, é muito jovem, a diferença de idades, etc. e tal... Mas aqui vence o medo de ficar sem ela, de naqueles meses de ausência ela conhecer outro, jovem como ela... Mas a Muriel está segura, e aqui é ela a adulta da relação, lembrando-nos a constância e a lealdade, perdidas em tantos adultos...

 

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publicado às 16:42

Começar de um outro ponto de partida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.03.08

 

Em The Naked Spur o nosso herói terá uma segunda oportunidade, mas será mesmo por um triz que a descobre.

A sua vida fora destruída por uma traição. Perdera tudo e é esse tudo que ele quer recuperar. Ainda que à custa do prémio pela captura de um assassino procurado.

É absolutamente comovente a forma como surge esse outro amor improvável, a forma como se protegem mutuamente, como se apoiam no final. Nessa paisagem agreste, no meio de homens desconfiados e prontos a trair e a roubar.

Depois de todas as peripécias, quando tudo parece ganho, essa troca do bandido pelo rancho, uma troca justa, descobre que esse tudo era outra coisa. Resolve dar um final digno à história e começar de um outro ponto de partida.

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 14:55


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